O Impasse do InfoFi

Quando Falar Não é Usar

O mundo cripto frequentemente se apresenta como uma terra prometida da abundância: o espaço do dinheiro mágico da internet, onde um trade bem-sucedido pode mudar vidas. Mesmo para quem não dispõe de capital para investir, trata-se de um universo conhecido por airdrops, incentivos de uso e promessas de ganhos acessíveis. Nesse contexto, o InfoFi surge, à primeira vista, como uma estratégia coerente.

Ainda assim, é preciso começar pelo óbvio, ainda que desconfortável: essas campanhas alteram de forma significativa o uso real dos protocolos? Produzem adesão ou apenas circulação discursiva? Quando observamos a inundação de conteúdo repetitivo e slops gerados por IA, a resposta tende a ser negativa. Movimentos intensos no plano da linguagem não são, necessariamente, deslocamentos práticos. O que muitas vezes se chama de tração é, na maior parte do tempo, apenas ocupação de superfície.

O InfoFi nasce de uma hipótese sedutora: se informação tem valor, então engajar informacionalmente deveria ser recompensado. Em um ecossistema acostumado a converter quase qualquer comportamento em incentivo econômico, a ideia parece consistente. O erro, no entanto, está na premissa básica: confundir linguagem com uso, visibilidade com experiência, fala com compromisso.

Um Breve Desvio Histórico

Antes do InfoFi, houve o SocialFi. Antes disso, o modelo clássico das redes: engajamento como métrica, atenção como recurso, dados como produto. O InfoFi não rompe com essa lógica, ele a torna explícita financeiramente. Ao monetizar diretamente o discurso, o sistema elimina o último atrito que separa fala e interesse real. A linguagem passa a se adaptar ao ambiente: mais rápida, mais genérica, mais replicável. A IA apenas acelera um processo já inscrito no próprio design. O resultado, consequentemente, não é adoção, mas saturação informacional com baixa densidade pragmática.

Para compreender o momento atual, e a interrupção abrupta de diversas plataformas de InfoFi, é necessário recuar alguns anos e observar como a monetização direta da linguagem vem sendo testada e tensionada nas redes cripto-sociais.

Um dos casos mais emblemáticos é o da Steemit, lançada em 2016. A proposta era simples e radical: usuários são recompensados em tokens STEEM por publicar, comentar e curar conteúdo. Em seu auge inicial, a plataforma ultrapassa um milhão de contas registradas e distribui milhões de dólares mensais em tokens.

Análises empíricas posteriores, baseadas em mais de 500 milhões de operações realizadas por cerca de 1,1 milhão de contas, revelam um padrão relevante: mais de 16% das transferências de tokens concentram-se em mecanismos automatizados ou em atores que exploram a lógica de incentivo, em vez de produzir conteúdo substantivo. O sistema gera atividade transacional intensa, mas não comunidades duradouras, retenção consistente ou aprofundamento no uso da própria plataforma. Um detalhe fica claro, a moeda de troca não é a experiência, mas a exploração das regras.

Essa dinâmica antecipa, em termos históricos, aquilo que hoje se observa nas campanhas de InfoFi: muito movimento perceptível nas métricas, pouca transformação concreta em adoção e uso real.

Outras tentativas buscam corrigir parte desses problemas. Plataformas como Minds, lançada em 2015, combinam discurso de liberdade, privacidade e recompensas tokenizadas mais moderadas, chegando a registrar milhões de usuários ao longo dos anos. Ainda assim, a fragilidade persiste: o engajamento recompensado funciona como atração inicial, mas não como estrutura de permanência. O padrão começa a se cristalizar: recompensar gera circulação, sustentar uso exige fricção e valor funcional.

Em 2023, experiências como Friend.tech introduzem uma camada explicitamente financeira à sociabilidade: perfis transformados em ativos, acesso social precificado, especulação direta sobre relações. O crescimento inicial é explosivo, com dezenas de milhares de usuários ativos diários e volumes elevados de taxas. A curva de retenção, no entanto, colapsa com a mesma rapidez. Quando os incentivos diminuem, o uso se dissipa. O ponto central não é o pico, mas a incapacidade de sustentar atividade sem recompensa direta.

A Transição para o InfoFi

Com novos projetos surgindo continuamente e uma disputa permanente por atenção e adesão, o InfoFi volta a parecer promissor. Uma nova geração de plataformas passa a monetizar não apenas o post, mas atenção, reputação, posicionamento discursivo e circulação narrativa.

Plataformas como Kaito, Wallchain, Xeet e Cookie DAO operam nesse regime. Os números são expressivos: dashboards com milhares de contas monitoradas, campanhas com volumes elevados de replies, métricas de mindshare em tempo real. O problema é que essas métricas medem intensidade discursiva, não uso de protocolo. Não há evidência consistente de correlação entre campanhas de InfoFi e aumento sustentado de usuários ativos em dApps, retenção de longo prazo ou integração funcional de produtos. O discurso cresce mais rápido do que a experiência.

O que diferencia o momento atual é a escala. Com a consolidação da IA generativa, da automação de respostas e da coordenação algorítmica, a distância entre fala incentivada e experiência humana torna-se estrutural. A quantidade de enunciados produzidos passa a exceder a capacidade das plataformas de interpretá-los como sinal legítimo. O que antes era ruído tolerável transforma-se em custo operacional e cognitivo.

Nesse contexto, o comunicado da Cookie DAO anunciando o encerramento do Snaps ganha relevância analítica. Mesmo operando dentro das regras, com dados oficiais e acesso legítimo, o modelo revela-se incompatível com o novo enquadramento. Não há acusação moral, há esgotamento estrutural. O InfoFi torna-se epistemologicamente caro demais: produzir, filtrar e validar sentido passa a exigir mais energia do que o sistema justifica.

O Dilema Energético

O endurecimento das políticas de API do X não é apenas um ajuste técnico. Funciona como um corte de energia. De repente, boa parte do InfoFi descobre que opera conectada a uma tomada que não controla. Quando o fluxo é interrompido, o sistema não desacelera, ele simplesmente apaga.

Projetos como Cookie DAO e Kaito reconhecem esse limite ao encerrar funcionalidades ligadas a recompensas diretas por engajamento. Mais revelador do que a reação do mercado é a exposição de um risco estrutural: a dependência de APIs Web2 para sustentar loops de crescimento tokenizados. O InfoFi terceiriza sua energia, no entanto, energia terceirizada tende a ser provisória.

Na corrida das plataformas para se posicionar diante da crise, a resposta da Kaito talvez seja a mais elucidativa do ciclo. Não porque encerra um produto, mas porque abandona um imaginário. Ao anunciar o sunset do Yaps e das leaderboards incentivadas, a Kaito não propõe ajustes incrementais. Assume que o modelo deixa de ser compatível com o futuro que pretende construir.

O ponto decisivo do comunicado não é operacional, mas conceitual. A pergunta deixa de ser “como melhorar o sistema?” e passa a ser “este ainda é o sistema certo?”. O Yaps encarna o ethos Web3 clássico: acesso aberto, distribuição permissionless, mérito medido por participação visível e funcionando como motor de awareness e expansão global, levando centenas de milhares de novos usuários ao cripto.

Com o tempo, porém, torna-se claro que o problema não é refinamento. Filtros mais rígidos, critérios adicionais e combinações de sinais não resolvem o ruído. O spam deixa de ser compreendido como desvio e passa a ser reconhecido como propriedade emergente do desenho do consumo e da criação nas redes sociais, agravada pela automação criativa artificial e pelas mudanças algorítmicas do X.

Talvez o ponto mais relevante da posição da Kaito seja sua leitura sobre o futuro do cripto. A ideia de uma ownership economy universal não se materializa. A oportunidade central passa a ser operar como infraestrutura invisível para pagamentos, stablecoins, tokenização e mercados globais.

Se o colapso do InfoFi expõe os limites do incentivo direto por postagem, ele também ilumina quais arquiteturas ainda podem atravessar esse momento. Não por estarem imunes, mas por operarem segundo outros regimes de energia, tempo e valor.

A resposta da Rally, por exemplo, não nega o colapso, ela o incorpora. Ao abandonar a lógica de mindshare e adotar campanhas granulares, desloca o foco da emissão para a validação. A participação deixa de ser automática. A IA não desaparece, mas perde sua vantagem marginal.

Em um ambiente dominado por conteúdos rápidos e virais, plataformas como o BULB seguem outro caminho. Ao apostar em escrita, leitura e permanência, o tempo torna-se filtro. A IA pode produzir rápido, mas não sustenta atenção. O crescimento é mais lento, menos espetacular, mas estruturalmente mais estável.

Um Setor em Transição

O que se delineia após o choque imposto pelo X não é diretamente o fim do InfoFi, mas o encerramento de um modelo expansivo apoiado em energia barata e linguagem abundante. As plataformas que permanecem de pé são aquelas que começam a redesenhar seus circuitos: reduzem a dependência de APIs centrais, deslocam os incentivos da emissão para a consequência e passam a tratar volume não como virtude, mas como custo a ser administrado.

Nesse novo enquadramento, a IA não desaparece, ela se reconfigura. Onde a lógica ainda privilegia velocidade, repetição e resposta imediata, a automação domina. Onde surgem atrito, tempo, validação e contexto, a IA perde centralidade e passa a atuar como mais um agente.

Talvez essa seja a virada real: sair da obsessão por escalar discurso e começar a cuidar da ecologia onde o discurso acontece. Não mais crescer a qualquer custo, mas aprender a sustentar.

Reply

or to participate.